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A adaga espacial do faraó Tutancâmon

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Dos vários artefatos levados para a proteção do faraó menino no além-mundo, um em especial, vem chamando a atenção dos arqueólogos e historiadores nas últimas décadas: uma adaga com cabo de ouro, decorado com cloisonné, trabalho de granulação e cristal de rocha e com uma lâmina de ferro de origem meteorítica, isto é, feita a partir dos vestígios de um meteoro.

Os resultados do mais recente estudo sobre a adaga do faraó Tutancâmon foram publicados na revista científica Meteoritics & Planetary Science (Ciência Meteorítica e Planetária) em maio desse ano.

A adaga foi encontrada em 11 de novembro de 1925 por Howard Carter, presa ao quadril direito da múmia do jovem faraó, entre as bandagens, e quando retirada da sua bainha de ouro, outra surpresa: sua bela lâmina de ferro ainda reluzia feito aço polido. Além dessa, outra daga com lâmina de ouro estava depositada sobre o abdômen do monarca. Na página 63 de seu diário, Carter anotou: “Hoje tem sido um grande dia na história da arqueologia, eu poderia dizer ainda, na história da descoberta arqueológica (…).” Outros vários objetos de ferro foram encontrados no túmulo, como 16 lâminas de ferro, um descanso de cabeça e um bracelete com o olho Udyat, mas, sem dúvidas, é a adaga de lâmina celestial que mais despertou a atenção dos estudiosos.

 

Adaga.
Adaga de lâmina de ferro meteorítico e bainha de ouro. Foto: cortesia do Meteoritics & Planetary Science.

 

A prática da fundição do ferro não era tão comum no antigo Egito até por volta do Primeiro milênio a.C., ao contrário do que ocorria nos reinos e povos vizinhos. Atestam os pesquisadores que, salvo em raras exceções documentadas, os objetos de ferro produzidos pelos egípcios eram de fato obtidos a partir do ferro achado em meteoros e não a partir da fundição de outros minerais (como cobre), já que esta exigia conhecimento metalúrgico complexo. Durante a “Idade do bronze”, sua aplicação não era tão comum na produção de artefatos utilitários e militares, limitando-se ao uso na composição de peças ornamentais, rituais e cerimoniais.

Como escreveu a equipe de pesquisadores: “(…) nosso estudo confirma que os antigos Egípcios atribuíam grande valor ao ferro meteorítico para a produção de objetos preciosos” – crença que certamente não se restringiu ao povo do Nilo, visto que muitas culturas ao redor do globo têm utilizado o ferro meteorítico para produção de pequenas ferramentas e objetos cerimoniais por centenas de anos.

 

Hieróglífo "ferro do céu".
Escrita hieroglífica “ferro do céu”. Foto: cortesia do Annual Meeting of the Meteoritical Society.

 

Finalmente, vale lembrar que o estudo, além de lançar luzes sobre a composição da lâmina (11% níquel e presença de cobalto), e comprovar a qualidade da manufatura primitiva de objetos de ferro pelos artesãos egípcios do séc. XIV a.C., ainda reforça nossa compreensão do termo ferro no Egito, que a partir da XIX dinastia passou a ser designado como “ferro do céu” (conforme o hieróglifo da figura anterior), indício da compreensão que os egípcios tinham das origens celestes do ferro obtido a partir dos meteoritos.

Alocada na coleção do Museu Egípcio do Cairo, a adaga não é o único artefato da tumba do faraó menino que teria origem cósmica. Segundo hipóteses levantadas por outros estudiosos, o besouro verde presente num dos peitorais achados na tumba do jovem rei teria sido feito com um tipo de vidro originado da colisão de um asteroide contra a terra há milhares de anos atrás, e que deixou vestígios no deserto egípcio, vestígios esses usados pelos artesãos e ourives do jovem faraó.

 

Besouro vítreo de origem celeste no peitoral do rei Tut.
Besouro vítreo no peitoral do rei Tut. Foto: cortesia do British Museum.

 

Muito embora tenha falecido em circunstâncias ainda hoje não totalmente conhecidas, era desejo do rei Tut ascender aos céus, o mundo dos deuses, levando consigo as esperanças de um povo inteiro. A adaga cósmica carregada com ele foi projetada para cumprir um sagrado propósito: proteger o faraó em sua jornada pelo além mundo.

 

Fontes:

CARTER, H. Tutankhamun: Anatomy of an Excavation. The Griffith Institute, University of Oxford. Disponível em: http://www.griffith.ox.ac.uk/discoveringTut/journals-and-diaries/season-4/journal.html. Acesso em: 08/06/16.

COMMELLI, D.; D’ORAZIO, M.; FOLCO, L. et al. The meteoritic origin of Tutankhamun’s iron dagger blade. Meteoritics & Planetary Science, v.51, n.5, p.1-9, 20 mai. 2016. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/maps.12664/full. Acesso: 05/06/16.

KELLEY, D. H.; MILONE, E. F. Exploring Ancient Skies: A Survey of Ancient and Cultural Astronomy. 2nd ed. Nova Iorque: Springer, 2011.

LORENZI, R. King Tut’s Blade Made of Meteorite. Space.com, 31 mai. 2016. Disponível em: http://www.space.com/33037-king-tut-blade-made-of-meteorite.html. Acesso em: 06/06/16.

SCHARPING, N. King Tut Was Buried with a Cosmic Dagger. Discover, 1 jun. 2016. Disponível em: http://blogs.discovermagazine.com/d-brief/2016/06/01/king-tut-dagger-space-meteor/#.V1YGM8vwuUm. Acesso em: 06/06/16.

Tut’s gem hits at space impact. BBC News, 19 Jul. 2006. Disponível em: http://www.ancien-tegypt.co.uk/cairo%20museum/cm,%20tutankhamun%20mask/pages/tut_article.htm. Acesso em: 06/06/16.

 

Indicação bibliográfica:

BRIER, Bob. O assassinato de Tutancâmon. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

JAMES, T.G.Henry. Tutancâmon. Barcelona: Folio, 2005. (Biblioteca Egito, N.1)

SANCHEZ, José Luis; ALMARZA, Merixtell (Dir.). Egito: terra de faraós. Barcelona: Folio, 2007. (Biblioteca Egito, N.5)

2 COMENTÁRIOS

    • Obrigado Lucas! De fato ao ler esse estudo fiquei bastante surpreso. Astronomia/astrologia antigas é um tema fascinante, nos ajuda a compreender uma série de questões sobre as culturas e suas cosmovisões (e também fez parte da temática que trabalhei em meu TCC de História). Fico feliz em poder contribuir para o AntigoEgito.org sempre que possível. Abraço e até a próxima.

      P.S.: Se possível, leia o artigo completo que está disponível online na íntegra.

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